Missões: uma utopia política |
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O presente estudo se propõe elucidar como a implantação de instituições e valores da sociedade global espanhola nas Missões guaranis da Província Jesuítica do Paraguai provocou a emergência de uma controvertida organização política, na qual se interpenetraram elementos políticos da cultura tradicional indígena e da hispano-americana. Os jesuítas foram os líderes carismáticos dos Guaranis, ao mesmo tempo que representantes locais da monarquia espanhola, da Santa Sé e da própria Companhia de Jesus. Situadas na fronteira do Império Colonial Espanhol, face á face de expansão do colonialismo luso-brasileiro, estas trinta povoações missioneiras desenvolveram instituições militares originais. Esta organização política dirigiu uma bem sucedida experiência de desenvolvimento material de comunidades indígenas aculturadas, mantendo relações permanentes com a sociedade global espanhola, da qual nunca se emancipou.
A análise está embasada na documentação já publicada e faz o exame crítico das hipóteses e mitos existentes na bibliografia. Além da descrição dos aspectos formais das instituições, são caracterizadas as suas relações com o corpo social e o contexto histórico dos Trinta Povos. O estudo se desenvolve em quatro etapas sucessivas. Inicialmente são estudadas as instituições político-administrativas espanholas e missioneiras, bem como a inserção destas na esfera jurídica da sociedade hispano-americana. A seguir é analisado o complexo papel político desempenhado pelos missionários e o tipo de liderança que exerceram. Após são examinadas as instituições militares bem como o seu significado político e relação com a situação fronteiriça. Finalmente se faz um estudo crítico das hipóteses que já foram até hoje sugeridas sobre a possível existência local de uma unidade política autônoma e soberana.
A síntese final indica que a organização política dos Trinta Povos não foi uma antevisão política do futuro, nem a aplicação de utopias renascentistas, nem o ponto de partida para o estabelecimento de um "Estado Jesuítico". Foi apenas o resultado de uma busca de equilíbrio entre a sociedade espanhola e a indígena, entre os interesses das frentes de expansão colonizadora hispano-portuguesa e os objetivos evangelizadores da ação missionária, entre o trono e o altar.
(Arno Alvarez Kern)
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